Blucher Design Proceedings
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Referências e métodos para pesquisas acerca das materialidades da internet no Brasil
Referências e métodos para pesquisas acerca das materialidades da internet no Brasil
Mamone, Felipe; Beiguelman, Giselle
Artigo:
1. Introdução Não é raro ouvirmos que a internet está em todos os lugares e, de certa forma, em lugar nenhum. Antes limitada aos computadores pessoais com conexão a cabo, a disseminação de aparelhos e redes móveis consolidou o imaginário da internet como uma utilidade pública, ubíqua e, principalmente, imaterial. Há cerca de dez anos, no entanto, um conjunto crescente de designers, artistas, jornalistas e acadêmicos vem trabalhando na contramão deste imaginário, no que denominamos de ‘virada materialista’ nos estudos sobre a internet. A comunicação oral e, por extensão, este resumo têm como objetivo a breve apresentação dessa tendência, particularmente a partir de duas dimensões: suas manifestações no campo dos estudos sobre a internet e seus desdobramentos no imaginário coletivo associado à rede. Para tanto, apresentaremos os principais teóricos da área e uma série de iniciativas que mapearam as arquiteturas de dados sob um viés material. Navegando entre os mais variados campos de estudo e de prática, os pesquisadores da virada materialista vêm se dedicando à investigação, ao mapeamento e à visualização daquilo que sustenta essas arquiteturas de dados e seus designs de informação: a materialidade técnica, composta em um primeiro nível pelos componentes necessários às suas operações individuais e, em um segundo, pela vasta infraestrutura de armazenamento, processamento e transmissão necessária à sua operação em rede. No campo teórico, são incontornáveis as pesquisas de Sean Cubitt sobre os impactos ambientais de eletroeletrônicos, as de Jussi Parikka sobre a composição dos ecossistemas midiáticos e as de Keller Easterling sobre o poder infraestrutural. Em diálogo com essas perspectivas, também podemos citar obras de artistas como Giselle Beiguelman, Lucas Bambozzi e Trevor Paglen que, à sua maneira, se dedicaram a dar forma sensível a essas complexas estruturas (Figura 1). No Brasil, o recente e intenso interesse pela materialidade da internet evidencia-se na multiplicação de relatórios setoriais, reportagens investigativas e, mais modestamente, pesquisas acadêmicas. De forma geral, é seguro dizer que, ao cabo de dois anos, termos antes técnicos como ‘data center’ e figuras antes desconhecidas como a dos cabos submarinos passaram a frequentar o debate público com naturalidade. A causa desta virada é inequívoca: o robusto ciclo de investimentos em infraestrutura digital, particularmente manifesto na expansão massiva de data centers nas regiões metropolitanas de São Paulo e de Fortaleza. Em conjunto, esses vetores — investimento financeiro, cobertura jornalística e análise setorial — deslocam a percepção da internet do plano etéreo da nuvem para o território concreto da disputa por recursos, energia e poder. Em suma, a pesquisa preliminar aponta para o fato de que a virada materialista no Brasil não é um reflexo ultramarino de tendências acadêmicas estrangeiras, mas uma resposta social à projeção do país como nó estratégico na infraestrutura global de dados. Ao confrontar a retórica da imaterialidade com a realidade física de data centers e cabos submarinos, a pesquisa busca evidenciar como a fixação da rede em territórios nacionais reconfigura não apenas as configurações locais de poder, mas também o imaginário associado a uma entidade ainda largamente vista como etérea. A contribuição central da abordagem reside, portanto, em desmistificar a "nuvem" como abstração, revelando-a como um campo de embate político, econômico e ambiental inadiável para a soberania digital brasileira.
1. Introdução Não é raro ouvirmos que a internet está em todos os lugares e, de certa forma, em lugar nenhum. Antes limitada aos computadores pessoais com conexão a cabo, a disseminação de aparelhos e redes móveis consolidou o imaginário da internet como uma utilidade pública, ubíqua e, principalmente, imaterial. Há cerca de dez anos, no entanto, um conjunto crescente de designers, artistas, jornalistas e acadêmicos vem trabalhando na contramão deste imaginário, no que denominamos de ‘virada materialista’ nos estudos sobre a internet. A comunicação oral e, por extensão, este resumo têm como objetivo a breve apresentação dessa tendência, particularmente a partir de duas dimensões: suas manifestações no campo dos estudos sobre a internet e seus desdobramentos no imaginário coletivo associado à rede. Para tanto, apresentaremos os principais teóricos da área e uma série de iniciativas que mapearam as arquiteturas de dados sob um viés material. Navegando entre os mais variados campos de estudo e de prática, os pesquisadores da virada materialista vêm se dedicando à investigação, ao mapeamento e à visualização daquilo que sustenta essas arquiteturas de dados e seus designs de informação: a materialidade técnica, composta em um primeiro nível pelos componentes necessários às suas operações individuais e, em um segundo, pela vasta infraestrutura de armazenamento, processamento e transmissão necessária à sua operação em rede. No campo teórico, são incontornáveis as pesquisas de Sean Cubitt sobre os impactos ambientais de eletroeletrônicos, as de Jussi Parikka sobre a composição dos ecossistemas midiáticos e as de Keller Easterling sobre o poder infraestrutural. Em diálogo com essas perspectivas, também podemos citar obras de artistas como Giselle Beiguelman, Lucas Bambozzi e Trevor Paglen que, à sua maneira, se dedicaram a dar forma sensível a essas complexas estruturas (Figura 1). No Brasil, o recente e intenso interesse pela materialidade da internet evidencia-se na multiplicação de relatórios setoriais, reportagens investigativas e, mais modestamente, pesquisas acadêmicas. De forma geral, é seguro dizer que, ao cabo de dois anos, termos antes técnicos como ‘data center’ e figuras antes desconhecidas como a dos cabos submarinos passaram a frequentar o debate público com naturalidade. A causa desta virada é inequívoca: o robusto ciclo de investimentos em infraestrutura digital, particularmente manifesto na expansão massiva de data centers nas regiões metropolitanas de São Paulo e de Fortaleza. Em conjunto, esses vetores — investimento financeiro, cobertura jornalística e análise setorial — deslocam a percepção da internet do plano etéreo da nuvem para o território concreto da disputa por recursos, energia e poder. Em suma, a pesquisa preliminar aponta para o fato de que a virada materialista no Brasil não é um reflexo ultramarino de tendências acadêmicas estrangeiras, mas uma resposta social à projeção do país como nó estratégico na infraestrutura global de dados. Ao confrontar a retórica da imaterialidade com a realidade física de data centers e cabos submarinos, a pesquisa busca evidenciar como a fixação da rede em territórios nacionais reconfigura não apenas as configurações locais de poder, mas também o imaginário associado a uma entidade ainda largamente vista como etérea. A contribuição central da abordagem reside, portanto, em desmistificar a "nuvem" como abstração, revelando-a como um campo de embate político, econômico e ambiental inadiável para a soberania digital brasileira.
Palavras-chave: Materialidade; infraestrutura; internet; imaginário Materialidade; infraestrutura; internet; imaginário
DOI: 10.5151/1JPPD-0116
Referências bibliográficas
- [1] BEIGUELMAN, Giselle. Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera. São Paulo: Editora Ubu, 2021.
- [2] CUBITT, Sean. Finite Media: environmental implications of digital technologies. Durham: Duke University Press, 2017.
- [3] EASTERLING, Keller. Extrastatecraft: the power of infrastructure space. Londres: Verso, 2014.
- [4] FULLER, Matthew. Media ecologies: materialist energies in art and technoculture. Cambridge: The MIT Press, 2005.
- [5] PARIKKA, Jussi. A geology of media. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2015.
Como citar:
Mamone, Felipe; Beiguelman, Giselle; "Referências e métodos para pesquisas acerca das materialidades da internet no Brasil", p-301-303.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0116
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TY - CONF T1 - Referências e métodos para pesquisas acerca das materialidades da internet no Brasil JO - Blucher Design Proceedings VL - 14 IS - 3 SP - 301 EP - 303 PY - 2026 T2 - I Jornada Paulista de Pesquisa em Design AU - , SN - 23186968 DO - http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0116 UR - www.proceedings.blucher.com.br/article-details/referencias-e-metodos-para-pesquisas-acerca-das-materialidades-da-internet-no-brasil KW - Materialidade; infraestrutura; internet; imaginário ER -
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Felipe Mamone, Giselle Beiguelman, Referências e métodos para pesquisas acerca das materialidades da internet no Brasil, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 301-303, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0116 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/referencias-e-metodos-para-pesquisas-acerca-das-materialidades-da-internet-no-brasil) Palavras-chave:: Materialidade; infraestrutura; internet; imaginário;