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Práticas do design contemporâneo: mulheres hackers tecendo resistências e cuidado comunitário por meio de resíduos têxteis e tecnologias digitais
Práticas do design contemporâneo: mulheres hackers tecendo resistências e cuidado comunitário por meio de resíduos têxteis e tecnologias digitais
Hidaka, Lucilene Mizue; Barbosa, Lara Leite; Noronha, Raquel Gomes
Artigo:
A relação intrínseca e histórica entre capitalismo, patriarcado e colonialismo constitui o eixo central de investigação nos estudos feministas para os 99% (Arruzza; Bhattacharya; Fraser, 2019). Esta pesquisa se insere nesse debate, partindo da premissa de que vivemos em uma “sociedade capitalista”, um “capitalismo canibal” que camufla suas relações sociais estruturantes, apresentando-as como relações econômicas (Fraser, 2024, p. 15). Essa dissimulação obscurece o fato de que a chamada economia é, na realidade, sustentada por uma base oculta de trabalho não remunerado ou precarizado, majoritariamente realizado por mulheres racializadas, e por um fluxo constante de recursos naturais tratados como infinitos (Fraser, 2024). O patriarcado capitalista colonial, enquanto projeto político hegemônico, hierarquiza indivíduos com base em gênero, raça e classe; invade territórios, apropria-se dos meios de produção, escraviza e empobrece sistematicamente. A classe dominante, em sua busca infinita por acumulação, objetifica de forma insustentável tanto a classe produtiva quanto a natureza (Wark, 2022). Um movimento histórico fundamental foi o “cercamento dos comuns” (enclosure of the commons), onde espaços e recursos geridos coletivamente passaram a ser dominados por interesses privados e individuais, criando um distanciamento entre produção e consumo (Mies e Bennholdt-Thomsen, 2001, p. 8). Para Federici (2019, p. 404), a reconstrução sob a perspectiva feminista é capaz de superar o distanciamento da relação produção, consumo e descarte; e o “processo de tornar comum deve ser o de produzirmos a nós mesmos como sujeitos comuns”, enfatizando que “não há comuns sem comunidade”. Para analisar a realidade brasileira, partimos do pensamento de Gonzalez (1984), cujo conceito de racismo e sexismo permite compreender a situação de vulnerabilidade social como um produto histórico da formação nacional. A esse quadro soma-se a noção de “tecnologia de gênero”, de Lauretis (1987, p. 121), e o conceito de "hacking/making feminista" (SSL Nagbot, 2016, n.p.), que questiona a ideia dominante de "hacker" e destaca a criatividade e a cooperação, com o intuito de promover inclusão por meio das lutas coletivas de mulheres, que "fazem" pelas manualidades e o cuidado. Por fim, a pesquisa ancora-se na crítica de Buckley (2025), que expõe o caráter patriarcal na História do Design, problematizando a definição do gênio criador, a invisibilização e hierarquização das atividades das mulheres. Este trabalho tem como objetivo pesquisar como movimentos sociais de mulheres — que criam artefatos com resíduos têxteis — utilizam as tecnologias digitais junto à reprodução social e do cuidado com a comunidade e o meio ambiente. Sobre as etapas da pesquisa, primeiramente foi construído o referencial teórico, depois o mapeamento documental exploratório e conversas informais com pessoas que atuam em iniciativas sociais. Assim, foi identificado o campo de estudo, realizado o contato institucional e visitas preliminares ao campo: um acampamento localizado no interior de São Paulo (Figura 1). Após a aprovação da Comissão de Ética em Pesquisa, será iniciada a pesquisa participante (Brandão e Borges, 2007; Freire, 2019), entrevistas semiestruturadas, registro fotográfico documental e diário de campo. A fase subsequente consistirá na análise dos dados coletados e redação final da tese.
A relação intrínseca e histórica entre capitalismo, patriarcado e colonialismo constitui o eixo central de investigação nos estudos feministas para os 99% (Arruzza; Bhattacharya; Fraser, 2019). Esta pesquisa se insere nesse debate, partindo da premissa de que vivemos em uma “sociedade capitalista”, um “capitalismo canibal” que camufla suas relações sociais estruturantes, apresentando-as como relações econômicas (Fraser, 2024, p. 15). Essa dissimulação obscurece o fato de que a chamada economia é, na realidade, sustentada por uma base oculta de trabalho não remunerado ou precarizado, majoritariamente realizado por mulheres racializadas, e por um fluxo constante de recursos naturais tratados como infinitos (Fraser, 2024). O patriarcado capitalista colonial, enquanto projeto político hegemônico, hierarquiza indivíduos com base em gênero, raça e classe; invade territórios, apropria-se dos meios de produção, escraviza e empobrece sistematicamente. A classe dominante, em sua busca infinita por acumulação, objetifica de forma insustentável tanto a classe produtiva quanto a natureza (Wark, 2022). Um movimento histórico fundamental foi o “cercamento dos comuns” (enclosure of the commons), onde espaços e recursos geridos coletivamente passaram a ser dominados por interesses privados e individuais, criando um distanciamento entre produção e consumo (Mies e Bennholdt-Thomsen, 2001, p. 8). Para Federici (2019, p. 404), a reconstrução sob a perspectiva feminista é capaz de superar o distanciamento da relação produção, consumo e descarte; e o “processo de tornar comum deve ser o de produzirmos a nós mesmos como sujeitos comuns”, enfatizando que “não há comuns sem comunidade”. Para analisar a realidade brasileira, partimos do pensamento de Gonzalez (1984), cujo conceito de racismo e sexismo permite compreender a situação de vulnerabilidade social como um produto histórico da formação nacional. A esse quadro soma-se a noção de “tecnologia de gênero”, de Lauretis (1987, p. 121), e o conceito de "hacking/making feminista" (SSL Nagbot, 2016, n.p.), que questiona a ideia dominante de "hacker" e destaca a criatividade e a cooperação, com o intuito de promover inclusão por meio das lutas coletivas de mulheres, que "fazem" pelas manualidades e o cuidado. Por fim, a pesquisa ancora-se na crítica de Buckley (2025), que expõe o caráter patriarcal na História do Design, problematizando a definição do gênio criador, a invisibilização e hierarquização das atividades das mulheres. Este trabalho tem como objetivo pesquisar como movimentos sociais de mulheres — que criam artefatos com resíduos têxteis — utilizam as tecnologias digitais junto à reprodução social e do cuidado com a comunidade e o meio ambiente. Sobre as etapas da pesquisa, primeiramente foi construído o referencial teórico, depois o mapeamento documental exploratório e conversas informais com pessoas que atuam em iniciativas sociais. Assim, foi identificado o campo de estudo, realizado o contato institucional e visitas preliminares ao campo: um acampamento localizado no interior de São Paulo (Figura 1). Após a aprovação da Comissão de Ética em Pesquisa, será iniciada a pesquisa participante (Brandão e Borges, 2007; Freire, 2019), entrevistas semiestruturadas, registro fotográfico documental e diário de campo. A fase subsequente consistirá na análise dos dados coletados e redação final da tese.
Palavras-chave: Gênero, Hackers, Capitalismo, Pesquisa em Design, Cuidado, Gênero, Hackers, Capitalismo, Pesquisa em Design, Cuidado,
DOI: 10.5151/1JPPD-0088
Referências bibliográficas
- [1] ARUZZA, Cinzia; BHATTACHARYA, Tithi; FRASER, Nancy. Feminismos para os 99%: Um Manifesto. São Paulo: Boitempo, 2019.
- [2] BRANDÃO, Carlos R.; BORGES, Maristela C. A pesquisa participante: um momento da educação popular. Revista Ed. Popular, v. 6, p. 51–62, 2007.
- [3] BUCKLEY, Cheryl. Design no Patriarcado. São Paulo: Clube do Livro de Design: Bikini Books, 2025.
- [4] FEDERICI, Silvia. O feminismo e a política dos comuns. In: Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019. p. 393–410.
- [5] FRASER, Nancy. Capitalismo Canibal: Como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso. São Paulo: Autonomia Literária, 2024.
- [6] FREIRE, Paulo. Educação como Prática de Liberdade. 45. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.
- [7] GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, São Paulo, p. 223–244, 1984.
- [8] LAURETIS, Teresa de. Tecnologia de Gênero. Bloomington, Indiana: Indiana University Press, 1987.
- [9] MIES, Maria; BENNHOLDT-THOMSEN, Veronika. Defending, Reclaiming and Reinventing the Commons. Canadian Journal of Development Studies, v. 22, n. 4, p. 997–1023, 2001.
- [10] SSL NAGBOT. Hacking/Making: Exploring new gender horizons of possibility. Peer Production, n. 8, 2016.
- [11] WARK, Mckenzie. Um manifesto Hacker. São Paulo: Funilaria, 2022.
Como citar:
Hidaka, Lucilene Mizue; Barbosa, Lara Leite; Noronha, Raquel Gomes; "Práticas do design contemporâneo: mulheres hackers tecendo resistências e cuidado comunitário por meio de resíduos têxteis e tecnologias digitais", p-227-229.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0088
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Lucilene Mizue Hidaka, Lara Leite Barbosa, Raquel Gomes Noronha, Práticas do design contemporâneo: mulheres hackers tecendo resistências e cuidado comunitário por meio de resíduos têxteis e tecnologias digitais, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 227-229, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0088 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/praticas-do-design-contemporaneo-mulheres-hackers-tecendo-resistencias-e-cuidado-comunitario-por-meio-de-residuos-texteis-e-tecnologias-digitais) Palavras-chave:: Gênero, Hackers, Capitalismo, Pesquisa em Design, Cuidado,;