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Identidade por meio da moda e das transformações corporais: corpos em fluxo no contemporâneo
Identidade por meio da moda e das transformações corporais: corpos em fluxo no contemporâneo
Viana, Ligia; Silva, Andrea Catrópa da
Artigo:
Resumo O desejo de modificar o corpo acompanha a humanidade desde seus primórdios, seja por razões culturais, espirituais, identitárias ou estéticas. No contemporâneo, esse processo ganha intensidade, marcado pela autonomia individual e pela busca da diferenciação em sociedades onde prevalecem padrões de normalização. O corpo passa a ser compreendido como um projeto em constante atualização, um território aberto a técnicas, tecnologias e linguagens artísticas que o modelam segundo os desejos e necessidades de cada sujeito. Nesse contexto, este trabalho propõe uma reflexão sobre o corpo como projeto estético e tecnológico, analisando suas relações com a moda e as artes da performance. A partir dessa perspectiva, busca-se responder à seguinte questão de pesquisa: de que maneira a moda e as transformações corporais atuam na construção e na comunicação das identidades no contexto contemporâneo? Para Le Breton (2007), o corpo tornou-se um empreendimento a ser administrado, um objeto transitório, manipulável e suscetível a diferentes experimentações. Exemplos como Mary José, a mulher mais modificada do México, e Zombie Boy, que transformou sua pele em suporte de tatuagens, mostram como a modificação corporal também pode constituir-se como vitrine de identidade. Já artistas como Orlan e Stelarc extrapolam as fronteiras do estético e do cotidiano: o primeiro, ao incorporar próteses, implantar uma terceira orelha em seu braço e explorar suspensões corporais, discute a obsolescência do corpo e sua fusão com a máquina; a segunda, ao realizar cirurgias plásticas como performances, questiona os padrões de beleza e denuncia o culto ao corpo feminino idealizado, tornando-se referência da chamada arte carnal (ORLAN, s.d.; STELARC, s.d.). Essas experimentações evidenciam a crescente porosidade entre corpo, arte e tecnologia — dinâmica incorporada e ressignificada pela moda. No contexto contemporâneo, a moda articula-se diretamente às transformações culturais e tecnológicas, tornando-se campo privilegiado para compreender como o corpo é projetado, mediado e representado socialmente (AVELAR, 2009). Assim, a moda constitui-se como importante mecanismo de construção e expressão de identidades sociais e individuais, desempenhando papel fundamental na maneira como os sujeitos se apresentam em seus contextos socioculturais. Por meio do ato de vestir, o indivíduo manifesta não apenas preferências estéticas ou funcionais, mas também valores simbólicos, pertencimentos culturais e vínculos a determinados grupos ou “tribos” sociais. A indumentária ultrapassa a função utilitária de proteção do corpo ou de adequação às normas de pudor, assumindo caráter comunicacional que opera como linguagem. Nesse sentido, a moda torna-se um código visual e performativo por meio do qual se afirmam identidades, marcam-se diferenças e constroem-se narrativas pessoais e coletivas. Moda e corpo constituem, portanto, um campo de hibridização. Santaella (2010) propõe a noção de corpo biocibernético, tecnologicamente estendido e atravessado por fluxos de informação, no qual biologia, mídia e tecnologia se entrelaçam. Nesse contexto, a roupa deixa de ser mero invólucro para tornar-se dispositivo transformador, capaz de ampliar funções, criar volumes e instaurar novas percepções sensoriais. Tal perspectiva aproxima-se do que Farren e Hutchison (2004) descrevem como a natureza mutável do vestuário em diálogo com o corpo e as tecnologias emergentes. Assim, ao lado de diversas técnicas de modificação corporal, a moda contribui para consolidar o corpo como espaço de experimentação estética e tecnológica, articulando práticas que envolvem arte, tecnociência e produção de subjetividades (VILLAÇA, 2007). O corpo (re)modelado reflete tanto os desejos individuais quanto os questionamentos sociais, evidenciando sua centralidade como campo de disputa estética, simbólica e política no contemporâneo.
Resumo O desejo de modificar o corpo acompanha a humanidade desde seus primórdios, seja por razões culturais, espirituais, identitárias ou estéticas. No contemporâneo, esse processo ganha intensidade, marcado pela autonomia individual e pela busca da diferenciação em sociedades onde prevalecem padrões de normalização. O corpo passa a ser compreendido como um projeto em constante atualização, um território aberto a técnicas, tecnologias e linguagens artísticas que o modelam segundo os desejos e necessidades de cada sujeito. Nesse contexto, este trabalho propõe uma reflexão sobre o corpo como projeto estético e tecnológico, analisando suas relações com a moda e as artes da performance. A partir dessa perspectiva, busca-se responder à seguinte questão de pesquisa: de que maneira a moda e as transformações corporais atuam na construção e na comunicação das identidades no contexto contemporâneo? Para Le Breton (2007), o corpo tornou-se um empreendimento a ser administrado, um objeto transitório, manipulável e suscetível a diferentes experimentações. Exemplos como Mary José, a mulher mais modificada do México, e Zombie Boy, que transformou sua pele em suporte de tatuagens, mostram como a modificação corporal também pode constituir-se como vitrine de identidade. Já artistas como Orlan e Stelarc extrapolam as fronteiras do estético e do cotidiano: o primeiro, ao incorporar próteses, implantar uma terceira orelha em seu braço e explorar suspensões corporais, discute a obsolescência do corpo e sua fusão com a máquina; a segunda, ao realizar cirurgias plásticas como performances, questiona os padrões de beleza e denuncia o culto ao corpo feminino idealizado, tornando-se referência da chamada arte carnal (ORLAN, s.d.; STELARC, s.d.). Essas experimentações evidenciam a crescente porosidade entre corpo, arte e tecnologia — dinâmica incorporada e ressignificada pela moda. No contexto contemporâneo, a moda articula-se diretamente às transformações culturais e tecnológicas, tornando-se campo privilegiado para compreender como o corpo é projetado, mediado e representado socialmente (AVELAR, 2009). Assim, a moda constitui-se como importante mecanismo de construção e expressão de identidades sociais e individuais, desempenhando papel fundamental na maneira como os sujeitos se apresentam em seus contextos socioculturais. Por meio do ato de vestir, o indivíduo manifesta não apenas preferências estéticas ou funcionais, mas também valores simbólicos, pertencimentos culturais e vínculos a determinados grupos ou “tribos” sociais. A indumentária ultrapassa a função utilitária de proteção do corpo ou de adequação às normas de pudor, assumindo caráter comunicacional que opera como linguagem. Nesse sentido, a moda torna-se um código visual e performativo por meio do qual se afirmam identidades, marcam-se diferenças e constroem-se narrativas pessoais e coletivas. Moda e corpo constituem, portanto, um campo de hibridização. Santaella (2010) propõe a noção de corpo biocibernético, tecnologicamente estendido e atravessado por fluxos de informação, no qual biologia, mídia e tecnologia se entrelaçam. Nesse contexto, a roupa deixa de ser mero invólucro para tornar-se dispositivo transformador, capaz de ampliar funções, criar volumes e instaurar novas percepções sensoriais. Tal perspectiva aproxima-se do que Farren e Hutchison (2004) descrevem como a natureza mutável do vestuário em diálogo com o corpo e as tecnologias emergentes. Assim, ao lado de diversas técnicas de modificação corporal, a moda contribui para consolidar o corpo como espaço de experimentação estética e tecnológica, articulando práticas que envolvem arte, tecnociência e produção de subjetividades (VILLAÇA, 2007). O corpo (re)modelado reflete tanto os desejos individuais quanto os questionamentos sociais, evidenciando sua centralidade como campo de disputa estética, simbólica e política no contemporâneo.
Palavras-chave: Design de Moda, Identidade, Transformações dos corpos, Hibridização Design de Moda, Identidade, Transformações dos corpos, Hibridização
DOI: 10.5151/1JPPD-0086
Referências bibliográficas
- [1] AVELAR, Suzana. Moda, globalização e novas tecnologias. São Paulo: Estação das letras e cores editora, 2009.
- [2] FARREN, Anne; HUTCHISON, Andrew. Ciborgues, novas tecnologias e o corpo: a natureza mutável do vestuário. In: FASHION THEORY, A REVISTA DA MODA, CORPO E CULTURA. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2004.
- [3] LE BRETON, David. Adeus ao corpo: antropologia e sociologia. 2ª Ed. Campinas: Papirus, 2007.
- [4] ORLAN. Orlan – site oficial. s.d. Disponível em: orlan.eu.
- [5] SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano, da cultura das mídias à cibercultura. 4ª. Ed. São Paulo: Paulus, 2010.
- [6] STELARC. Stelarc – site oficial. s.d. Disponível em: www.stelarc.org.
- [7] VILLAÇA, Nízia. A edição do corpo – tecnociência, artes e moda. Barueri: Estação das letras, 2007.
Como citar:
Viana, Ligia; Silva, Andrea Catrópa da; "Identidade por meio da moda e das transformações corporais: corpos em fluxo no contemporâneo", p-222-223.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0086
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Ligia Viana, Andrea Catrópa da Silva, Identidade por meio da moda e das transformações corporais: corpos em fluxo no contemporâneo, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 222-223, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0086 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/identidade-por-meio-da-moda-e-das-transformacoes-corporais-corpos-em-fluxo-no-contemporaneo) Palavras-chave:: Design de Moda, Identidade, Transformações dos corpos, Hibridização;