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Escritas manuais nas ruas paulistanas: algumas táticas gráficas
Escritas manuais nas ruas paulistanas: algumas táticas gráficas
Castelucci, Giovani; Farias, Priscila
Artigo:
O dia a dia em uma cidade como São Paulo demanda muitas mensagens assíncronas, como indicar a uma possível visita onde está a campainha ou informar à pessoa que passa em frente a um restaurante quais são os pratos do dia. Praticar essas comunicações cotidianas muitas vezes requer a confecção de artefatos com o que se tem à mão, dispensando-se a contratação de profissionais para esse fim. Em O espaço dividido, Milton Santos caracteriza ambulantes, pequenos comerciantes, sapateiros e carroceiros (dentre inúmeros outros exemplos) como participantes do “circuito inferior da economia urbana” (Santos, 2004, p. 43). Nesse circuito, a tecnologia é marcada pelo trabalho intensivo e é “freqüentemente local ou localmente adaptada ou recriada”, em distinção ao chamado “circuito superior”, do qual fazem parte bancos, indústrias, redes atacadistas e demais agentes urbanos que detêm maior poder sobre suas ações. Nesse circuito, é utilizada “uma tecnologia importada e de alto nível”, ou seja, uma tecnologia impulsionada pelo capital intensivo. É possível encontrar reflexão similar em A invenção do cotidiano. No livro, Michel de Certeau (1998, p. 100) diferencia as táticas (ações das pessoas comuns que devem “jogar com o terreno que lhe é imposto”) das estratégias (formadas por ações calculadas e premeditadas pelas instâncias que detêm o poder). No contexto do mestrado em andamento foram realizadas derivas nas 5 regiões paulistanas (norte, sul, leste, oeste e centro) que resultaram em centenas de fotografias de artefatos gráficos que contêm escritas à mão. Após a realização de um estudo piloto que buscou de maneira indutiva revelar características de exemplares da região oeste (Castelucci; Farias, 2024), foi criado um modelo que auxilia na descrição de aproximadamente 60 aspectos de artefatos populares de comunicação (Castelucci, 2025). É possível identificar táticas gráficas utilizadas em sua confecção: modos de fazer com que a informação caiba no suporte escolhido, jeitos diferentes de atualizar as informações de um cartaz, utilização do próprio suporte como grade para a disposição das informações, meios de se aumentar a espessura de uma letra e a reutilização de materiais são algumas delas. O cartaz apresentado na figura 1, colado com fita adesiva no portão de uma imobiliária, utiliza algumas dessas táticas: a mais visível delas é a maneira de atualizar a informação a respeito da venda do imóvel, por meio da escrita em maiúsculas da palavra “VENDEU” bem maior que as demais. A caneta hidrográfica vermelha proporciona bom contraste com o papel amarelo e, por conta da transparência do material, deixa visíveis as informações em preto. Para se obter letras mais grossas, cada traço é grafado várias vezes, permitindo que a mesma ferramenta origine caracteres de diferentes espessuras. Outro recurso utilizado na peça é a inclinação do texto que indica a proximidade com o banco, que diferencia essa informação das demais presentes no artefato. Observar e analisar essas táticas permite, ao mesmo tempo, identificar e registrar tanto características de artefatos gráficos (como os materiais de que são feitos e recursos gráficos e aplicados), como também os assuntos presentes no meio urbano cotidiano, com mensagens destinadas a pessoas que fazem parte de diferentes circuitos. Possibilita, ainda, descobrir itens idiossincráticos, criados a partir de recursos que não são encontrados em outros locais. Revela, portanto, modos de se utilizar a linguagem verbal escrita que compõem a paisagem tipográfica da cidade. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
O dia a dia em uma cidade como São Paulo demanda muitas mensagens assíncronas, como indicar a uma possível visita onde está a campainha ou informar à pessoa que passa em frente a um restaurante quais são os pratos do dia. Praticar essas comunicações cotidianas muitas vezes requer a confecção de artefatos com o que se tem à mão, dispensando-se a contratação de profissionais para esse fim. Em O espaço dividido, Milton Santos caracteriza ambulantes, pequenos comerciantes, sapateiros e carroceiros (dentre inúmeros outros exemplos) como participantes do “circuito inferior da economia urbana” (Santos, 2004, p. 43). Nesse circuito, a tecnologia é marcada pelo trabalho intensivo e é “freqüentemente local ou localmente adaptada ou recriada”, em distinção ao chamado “circuito superior”, do qual fazem parte bancos, indústrias, redes atacadistas e demais agentes urbanos que detêm maior poder sobre suas ações. Nesse circuito, é utilizada “uma tecnologia importada e de alto nível”, ou seja, uma tecnologia impulsionada pelo capital intensivo. É possível encontrar reflexão similar em A invenção do cotidiano. No livro, Michel de Certeau (1998, p. 100) diferencia as táticas (ações das pessoas comuns que devem “jogar com o terreno que lhe é imposto”) das estratégias (formadas por ações calculadas e premeditadas pelas instâncias que detêm o poder). No contexto do mestrado em andamento foram realizadas derivas nas 5 regiões paulistanas (norte, sul, leste, oeste e centro) que resultaram em centenas de fotografias de artefatos gráficos que contêm escritas à mão. Após a realização de um estudo piloto que buscou de maneira indutiva revelar características de exemplares da região oeste (Castelucci; Farias, 2024), foi criado um modelo que auxilia na descrição de aproximadamente 60 aspectos de artefatos populares de comunicação (Castelucci, 2025). É possível identificar táticas gráficas utilizadas em sua confecção: modos de fazer com que a informação caiba no suporte escolhido, jeitos diferentes de atualizar as informações de um cartaz, utilização do próprio suporte como grade para a disposição das informações, meios de se aumentar a espessura de uma letra e a reutilização de materiais são algumas delas. O cartaz apresentado na figura 1, colado com fita adesiva no portão de uma imobiliária, utiliza algumas dessas táticas: a mais visível delas é a maneira de atualizar a informação a respeito da venda do imóvel, por meio da escrita em maiúsculas da palavra “VENDEU” bem maior que as demais. A caneta hidrográfica vermelha proporciona bom contraste com o papel amarelo e, por conta da transparência do material, deixa visíveis as informações em preto. Para se obter letras mais grossas, cada traço é grafado várias vezes, permitindo que a mesma ferramenta origine caracteres de diferentes espessuras. Outro recurso utilizado na peça é a inclinação do texto que indica a proximidade com o banco, que diferencia essa informação das demais presentes no artefato. Observar e analisar essas táticas permite, ao mesmo tempo, identificar e registrar tanto características de artefatos gráficos (como os materiais de que são feitos e recursos gráficos e aplicados), como também os assuntos presentes no meio urbano cotidiano, com mensagens destinadas a pessoas que fazem parte de diferentes circuitos. Possibilita, ainda, descobrir itens idiossincráticos, criados a partir de recursos que não são encontrados em outros locais. Revela, portanto, modos de se utilizar a linguagem verbal escrita que compõem a paisagem tipográfica da cidade. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
Palavras-chave: paisagem tipográfica, tipografia vernacular, letreiramento, escrita informal, cotidiano paisagem tipográfica, tipografia vernacular, letreiramento, escrita informal, cotidiano
DOI: 10.5151/1JPPD-0121
Referências bibliográficas
- [1] CASTELUCCI, Giovani; FARIAS, Priscila. Escritas informais na cidade de São Paulo: um estudo piloto nos bairros da Lapa e Pompeia. In: Anais do P&D Design 2024 - 15º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design. Manaus: EDUA - Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2024. p. 1-22. Disponível em https://doi.org/10.29327/5457226.1-295. Acesso em: 1 out. 2025.
- [2] CASTELUCCI, Giovani. Modelo descritivo para artefatos contendo escritas informais na paisagem tipográfica. In: 12º Congresso Internacional de Design da Informação. Blucher Design Proceedings. São Paulo, Brasil: Editora Blucher, set. 2025. Disponível em: https://doi.org/10.5151/cidi2025-1087448. Acesso em: 1 out. 2025
- [3] CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1998.
- [4] SANTOS, Milton. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.
Como citar:
Castelucci, Giovani; Farias, Priscila; "Escritas manuais nas ruas paulistanas: algumas táticas gráficas", p-316-318.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0121
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Giovani Castelucci, Priscila Farias, Escritas manuais nas ruas paulistanas: algumas táticas gráficas, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 316-318, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0121 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/escritas-manuais-nas-ruas-paulistanas-algumas-taticas-graficas) Palavras-chave:: paisagem tipográfica, tipografia vernacular, letreiramento, escrita informal, cotidiano;