Blucher Design Proceedings
- Todas as edições
- Última edição
- Equipe de Produção
- ISSN 2318-6968
Design para lembrar: os caracteres para túmulos de guerra do designer Max Gill
Design para lembrar: os caracteres para túmulos de guerra do designer Max Gill
Vieira, Bruno; Farias, Priscila Lena
Artigo:
Leslie MacDonald Gill (1884-1947), conhecido como Max Gill, foi um designer gráfico britânico que se destacou por sua atuação nos memoriais das grandes guerras mundiais. Entre suas contribuições notáveis está o trabalho desenvolvido para a Comissão Imperial de Túmulos de Guerra, criada durante a Primeira Guerra Mundial com a missão de honrar os combatentes mortos em batalha. Atualmente, a instituição é conhecida como Commonwealth War Graves Commission (CWGC, 2025). Convocado pela CWGC, Gill atuou na criação de um conjunto de caracteres e dos emblemas regimentais, concebendo um sistema visual padronizado para as lápides. A IWGC, fundada em 1917, tinha como propósito oferecer o sepultamento digno e uniforme dos soldados do Império Britânico mortos em combate. Para definir a aparência dos túmulos, a Comissão encarregou arquitetos, escultores e designers de buscar um modelo que expressasse igualdade para todos os mortos, independentemente de patente, origem ou religião (CWGC, 2025). As decisões da Comissão determinaram que as lápides deveriam ser simples, uniformes, e dispostas em fileiras, criando a impressão de soldados alinhados. Todas possuíam as mesmas dimensões e formato, 1 metro de altura, 38 cm de largura e 7,6 cm de espessura, e eram talhadas em pedra branca de Portland, com topo curvado para protegê-las contra a intempérie (Walker, 2020). Cada lápide continha número de serviço, nome, patente, regimento, data de falecimento, idade e, opcionalmente, uma dedicatória familiar no rodapé. Os caracteres desenvolvidos por Gill foram projetados para o entalhe em pedra com ângulo de 60°, mais íngreme que o habitual, o que aumentava a sombra nas cavidades e, consequentemente, a legibilidade à distância (Figura 1). O conjunto de letras e algarismos serifados concebido por Gill constitui um alfabeto memorial funcional, pensado para resistir ao tempo e à erosão (Walker, 2020). Os emblemas regimentais desenhados por Gill, que identificavam a origem ou função dos militares, foram concebidos para serem reproduzidos em baixo-relevo. Para garantir a uniformidade, Gill elaborou cerca de 150 desenhos em formato medalhão com 18 cm de diâmetro, usados como referência. Os caracteres projetados por Gill foram aplicados em outros monumentos da Comissão, como memoriais coletivos e portões. Paralelamente, Gill atendeu encomendas particulares de famílias enlutadas, que solicitavam memoriais e placas de diversos materiais, perpetuando o estilo visual desenvolvido para a Comissão. Em levantamentos fotográficos realizados desde 2023 em cemitérios protestantes brasileiros e portugueses, lápides padronizadas pela CWGC foram identificadas em cemitérios localizados no Recife, Rio de Janeiro (Figura 2), Natal, Lisboa e Porto. No caso de Natal, a visita ao Cemitério do Alecrim revelou a presença de fragmentos remanescentes de um antigo cemitério britânico na cidade. Segundo o CWGC (2025), lápides de guerra também foram documentadas em Santos (São Paulo) e Belém (Pará). Lápides que seguem o padrão definido pela CWGC, podem apresentar variações conforme o país. Em Portugal, por exemplo, as cruzes são mais largas do que aquelas que aparecem em lápides brasileiras, e abrigam os emblemas em seu interior. No Brasil, as cruzes são estreitas e os emblemas aparecem acima da inscrição. Ainda hoje, a CWGC segue atuando na preservação de túmulos e na substituição de lápides danificadas, mantendo os princípios definidos no início do século XX. Em um dos cemitérios visitados em Recife, foi possível identificar duas placas referentes a um mesmo indivíduo, sendo apenas uma delas posicionada sobre o túmulo, um indício da continuidade desse processo de substituição e manutenção. O projeto de Max Gill vai além da função utilitária das inscrições funerárias e se torna referência no design cemiterial, no qual inscrições tipográficas e emblemas se unem na construção de uma linguagem visual para memória.
Leslie MacDonald Gill (1884-1947), conhecido como Max Gill, foi um designer gráfico britânico que se destacou por sua atuação nos memoriais das grandes guerras mundiais. Entre suas contribuições notáveis está o trabalho desenvolvido para a Comissão Imperial de Túmulos de Guerra, criada durante a Primeira Guerra Mundial com a missão de honrar os combatentes mortos em batalha. Atualmente, a instituição é conhecida como Commonwealth War Graves Commission (CWGC, 2025). Convocado pela CWGC, Gill atuou na criação de um conjunto de caracteres e dos emblemas regimentais, concebendo um sistema visual padronizado para as lápides. A IWGC, fundada em 1917, tinha como propósito oferecer o sepultamento digno e uniforme dos soldados do Império Britânico mortos em combate. Para definir a aparência dos túmulos, a Comissão encarregou arquitetos, escultores e designers de buscar um modelo que expressasse igualdade para todos os mortos, independentemente de patente, origem ou religião (CWGC, 2025). As decisões da Comissão determinaram que as lápides deveriam ser simples, uniformes, e dispostas em fileiras, criando a impressão de soldados alinhados. Todas possuíam as mesmas dimensões e formato, 1 metro de altura, 38 cm de largura e 7,6 cm de espessura, e eram talhadas em pedra branca de Portland, com topo curvado para protegê-las contra a intempérie (Walker, 2020). Cada lápide continha número de serviço, nome, patente, regimento, data de falecimento, idade e, opcionalmente, uma dedicatória familiar no rodapé. Os caracteres desenvolvidos por Gill foram projetados para o entalhe em pedra com ângulo de 60°, mais íngreme que o habitual, o que aumentava a sombra nas cavidades e, consequentemente, a legibilidade à distância (Figura 1). O conjunto de letras e algarismos serifados concebido por Gill constitui um alfabeto memorial funcional, pensado para resistir ao tempo e à erosão (Walker, 2020). Os emblemas regimentais desenhados por Gill, que identificavam a origem ou função dos militares, foram concebidos para serem reproduzidos em baixo-relevo. Para garantir a uniformidade, Gill elaborou cerca de 150 desenhos em formato medalhão com 18 cm de diâmetro, usados como referência. Os caracteres projetados por Gill foram aplicados em outros monumentos da Comissão, como memoriais coletivos e portões. Paralelamente, Gill atendeu encomendas particulares de famílias enlutadas, que solicitavam memoriais e placas de diversos materiais, perpetuando o estilo visual desenvolvido para a Comissão. Em levantamentos fotográficos realizados desde 2023 em cemitérios protestantes brasileiros e portugueses, lápides padronizadas pela CWGC foram identificadas em cemitérios localizados no Recife, Rio de Janeiro (Figura 2), Natal, Lisboa e Porto. No caso de Natal, a visita ao Cemitério do Alecrim revelou a presença de fragmentos remanescentes de um antigo cemitério britânico na cidade. Segundo o CWGC (2025), lápides de guerra também foram documentadas em Santos (São Paulo) e Belém (Pará). Lápides que seguem o padrão definido pela CWGC, podem apresentar variações conforme o país. Em Portugal, por exemplo, as cruzes são mais largas do que aquelas que aparecem em lápides brasileiras, e abrigam os emblemas em seu interior. No Brasil, as cruzes são estreitas e os emblemas aparecem acima da inscrição. Ainda hoje, a CWGC segue atuando na preservação de túmulos e na substituição de lápides danificadas, mantendo os princípios definidos no início do século XX. Em um dos cemitérios visitados em Recife, foi possível identificar duas placas referentes a um mesmo indivíduo, sendo apenas uma delas posicionada sobre o túmulo, um indício da continuidade desse processo de substituição e manutenção. O projeto de Max Gill vai além da função utilitária das inscrições funerárias e se torna referência no design cemiterial, no qual inscrições tipográficas e emblemas se unem na construção de uma linguagem visual para memória.
Palavras-chave: Lettering; emblemas; Max Gill; Comissão de Túmulos de Guerra Lettering; emblemas; Max Gill; Comissão de Túmulos de Guerra
DOI: 10.5151/1JPPD-0067
Referências bibliográficas
- [1] CWGC. Establishing iconography: Designing the architecture of the Commonwealth War Graves Commission. Commonwealth War Graves Commission, 17 fev. 2025. Disponível em: https://www.cwgc.org/our-work/blog/establishing-iconography-designing-the-architecture-of-the-commonwealth-war-graves-commission/. Acesso em: 05 set. 2025.
- [2] WALKER, Caroline. MacDonald Gill: Charting a Life. Londres: Unicorn Publishing Group, 2020.
Como citar:
Vieira, Bruno; Farias, Priscila Lena; "Design para lembrar: os caracteres para túmulos de guerra do designer Max Gill", p-179-181.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0067
últimos 30 dias
1
downloads
1
visualizações
3
indexações
Sou autor desse trabalho
Você é citado neste trabalho?
Exportar citação - RefWork (RIS)
Copie a citação abaixo ou clique no botão Download para obter um arquivo com os dados
TY - CONF T1 - Design para lembrar: os caracteres para túmulos de guerra do designer Max Gill JO - Blucher Design Proceedings VL - 14 IS - 3 SP - 179 EP - 181 PY - 2026 T2 - I Jornada Paulista de Pesquisa em Design AU - , SN - 23186968 DO - http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0067 UR - www.proceedings.blucher.com.br/article-details/design-para-lembrar-os-caracteres-para-tumulos-de-guerra-do-designer-max-gill KW - Lettering; emblemas; Max Gill; Comissão de Túmulos de Guerra ER -
Exportar citação - BibTeX(BIB)
Copie a citação abaixo ou clique no botão Download para obter um arquivo com os dados
@article{Vieira20144,
title="Design para lembrar: os caracteres para túmulos de guerra do designer Max Gill",
journal="Blucher Design Proceedings",
volume="14",
number="3",
pages="179 - 181",
year="2026",
note="",
issn="23186968",
doi="http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0067",
url="www.proceedings.blucher.com.br/article-details/design-para-lembrar-os-caracteres-para-tumulos-de-guerra-do-designer-max-gill",
author="Bruno Vieira", "Priscila Lena Farias",
keywords="Lettering; emblemas; Max Gill; Comissão de Túmulos de Guerra",
}
Exportar citação - Text(TXT)
Copie a citação abaixo ou clique no botão Download para obter um arquivo com os dados
Bruno Vieira, Priscila Lena Farias, Design para lembrar: os caracteres para túmulos de guerra do designer Max Gill, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 179-181, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0067 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/design-para-lembrar-os-caracteres-para-tumulos-de-guerra-do-designer-max-gill) Palavras-chave:: Lettering; emblemas; Max Gill; Comissão de Túmulos de Guerra;