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A exposição Nordeste (1963): Lina Bo Bardi e o olhar avant-gard para um projeto de design brasileiro
A exposição Nordeste (1963): Lina Bo Bardi e o olhar avant-gard para um projeto de design brasileiro
Villas-Bôas Dória Lins, Bruna; Loschiavo dos Santos, Maria Cecilia
Artigo:
Este artigo é um desdobramento dos resultados encontrados durante a pesquisa documental da tese em desenvolvimento, Lina Bo Bardi: Bahia, design e política - das margens para o centro, e, propõe uma reflexão sobre o pensamento de Lina Bo Bardi na exposição Nordeste (1963), concebida para inaugurar o Museu de Arte Popular (MAP-MAMBA) em Salvador. A exposição pode ser entendida como um gesto político e epistemológico que desloca o design e a arte do eixo eurocêntrico para o campo do cotidiano e das culturas populares brasileiras. Nordeste, ao legitimar a inventividade vernacular presente nos objetos funcionais do homem nordestino, propõe uma concepção de design que surge das margens e tensiona as hierarquias entre arte, técnica e vida. A pesquisa fundamenta-se em uma revisão sistemática de literatura sobre Bo Bardi (1994), Flusser (2007), Magalhães (1998) e Escobar (2018), além da análise documental do acervo pessoal de Lina, com ênfase em anotações e textos produzidos entre 1959 e 1964, período em que ela viveu na Bahia. Esse cruzamento de fontes permitiu compreender Nordeste como uma prática cultural e política, inscrita em um projeto de design avant-garde. A escolha de materiais descartados como jornais, retalhos, latas e lâmpadas queimadas conferiu à exposição um caráter simbólico e de resistência. Lina transformou a precariedade em válvula criativa, instaurando o que ela denomina uma civilização em movimento (BARDI, 1963). Essa postura aproxima-se da visão de Flusser (2007), que compreende o design como ponte entre técnica e arte, capaz de libertar o homem da mera funcionalidade para o campo da invenção. Ao resgatar o fazer artesanal como método e linguagem, Lina propôs uma ruptura entre Arte maior com A e arte menor (BARDI, 1958), aproximando o design da vida comum. A ação de Lina em Nordeste, ao elevar o cotidiano à categoria de cultura, situa o design como campo de invenção e crítica à desigualdade. Assim como Lina, Magalhães compreende o design como prática que deve responder às condições concretas do país, conciliando as diferentes realidades brasileiras. Arturo Escobar (2018) defende práticas projetuais ancoradas na diversidade cultural e na sustentabilidade. Essa ideia dialoga diretamente com a experiência de Lina, que cinco décadas antes havia sugerido um design para o povo e o popular. Ao reconhecer no Nordeste uma riqueza pré-artesanal, antecipa debates sobre decolonialidade apontando o design como ferramenta de emancipação cultural. Em Nordeste, o reuso de objetos marginalizados e o diálogo entre erudito e popular configuram uma pedagogia do olhar, na qual o design assume papel de mediação entre o simbólico e o prático, entre o humano e o material. Ao expor objetos cuja matéria-prima era o lixo (BARDI, 1994), Lina questiona a lógica do progresso e propõe uma reconfiguração de museu como espaço vivo de resistência e invenção. Deste modo, é possível observar que a exposição Nordeste representa uma ruptura paradigmática no campo do design _x000c_ Bruna VILLAS-BÔAS, Maria Cecilia SANTOS A exposição Nordeste (1963) brasileiro, uma proposta insurgente capaz de pensar o país a partir de suas margens culturais. A interlocução entre os pensamentos de Flusser, Magalhães e Escobar revela um design comprometido com as transformações das realidades locais. Ao reconhecer a força criativa contida no limite do nada, Lina antecipa uma agenda decolonial avant-garde, afirmando o design como prática política e cultural. Sua proposta em Nordeste evidencia que o design brasileiro nasce do encontro entre erudito e popular, onde o cotidiano se torna espaço de invenção e resistência e o design uma ferramenta resiliente.
Este artigo é um desdobramento dos resultados encontrados durante a pesquisa documental da tese em desenvolvimento, Lina Bo Bardi: Bahia, design e política - das margens para o centro, e, propõe uma reflexão sobre o pensamento de Lina Bo Bardi na exposição Nordeste (1963), concebida para inaugurar o Museu de Arte Popular (MAP-MAMBA) em Salvador. A exposição pode ser entendida como um gesto político e epistemológico que desloca o design e a arte do eixo eurocêntrico para o campo do cotidiano e das culturas populares brasileiras. Nordeste, ao legitimar a inventividade vernacular presente nos objetos funcionais do homem nordestino, propõe uma concepção de design que surge das margens e tensiona as hierarquias entre arte, técnica e vida. A pesquisa fundamenta-se em uma revisão sistemática de literatura sobre Bo Bardi (1994), Flusser (2007), Magalhães (1998) e Escobar (2018), além da análise documental do acervo pessoal de Lina, com ênfase em anotações e textos produzidos entre 1959 e 1964, período em que ela viveu na Bahia. Esse cruzamento de fontes permitiu compreender Nordeste como uma prática cultural e política, inscrita em um projeto de design avant-garde. A escolha de materiais descartados como jornais, retalhos, latas e lâmpadas queimadas conferiu à exposição um caráter simbólico e de resistência. Lina transformou a precariedade em válvula criativa, instaurando o que ela denomina uma civilização em movimento (BARDI, 1963). Essa postura aproxima-se da visão de Flusser (2007), que compreende o design como ponte entre técnica e arte, capaz de libertar o homem da mera funcionalidade para o campo da invenção. Ao resgatar o fazer artesanal como método e linguagem, Lina propôs uma ruptura entre Arte maior com A e arte menor (BARDI, 1958), aproximando o design da vida comum. A ação de Lina em Nordeste, ao elevar o cotidiano à categoria de cultura, situa o design como campo de invenção e crítica à desigualdade. Assim como Lina, Magalhães compreende o design como prática que deve responder às condições concretas do país, conciliando as diferentes realidades brasileiras. Arturo Escobar (2018) defende práticas projetuais ancoradas na diversidade cultural e na sustentabilidade. Essa ideia dialoga diretamente com a experiência de Lina, que cinco décadas antes havia sugerido um design para o povo e o popular. Ao reconhecer no Nordeste uma riqueza pré-artesanal, antecipa debates sobre decolonialidade apontando o design como ferramenta de emancipação cultural. Em Nordeste, o reuso de objetos marginalizados e o diálogo entre erudito e popular configuram uma pedagogia do olhar, na qual o design assume papel de mediação entre o simbólico e o prático, entre o humano e o material. Ao expor objetos cuja matéria-prima era o lixo (BARDI, 1994), Lina questiona a lógica do progresso e propõe uma reconfiguração de museu como espaço vivo de resistência e invenção. Deste modo, é possível observar que a exposição Nordeste representa uma ruptura paradigmática no campo do design _x000c_ Bruna VILLAS-BÔAS, Maria Cecilia SANTOS A exposição Nordeste (1963) brasileiro, uma proposta insurgente capaz de pensar o país a partir de suas margens culturais. A interlocução entre os pensamentos de Flusser, Magalhães e Escobar revela um design comprometido com as transformações das realidades locais. Ao reconhecer a força criativa contida no limite do nada, Lina antecipa uma agenda decolonial avant-garde, afirmando o design como prática política e cultural. Sua proposta em Nordeste evidencia que o design brasileiro nasce do encontro entre erudito e popular, onde o cotidiano se torna espaço de invenção e resistência e o design uma ferramenta resiliente.
Palavras-chave: Lina Bo Bardi; Design brasileiro; Exposição Nordeste (1963) Lina Bo Bardi; Design brasileiro; Exposição Nordeste (1963)
DOI: 10.5151/1JPPD-0066
Referências bibliográficas
- [1] BARDI, Lina Bo. Tempos de grossura: o design no impasse. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1994.
- [2] BARDI, Lina Bo (ed.). Crônicas: de arte, de história, de costume, de cultura da vida: arte industrial. Diário de Notícias, Salvador, 26 out. 1958.
- [3] BARDI, Lina Bo (ed.). Texto curatorial da exposição Nordeste. Salvador, 1963.
- [4] ESCOBAR, Arturo. Designs for the pluriverse: radical interdependence, autonomy, and the making of worlds. Durham: Duke University Press, 2018. p. 25–48.
- [5] FLUSSER, Vilém. O mundo codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. Organização de Rafael Cardoso. Tradução de Raquel Abi-Sâmara. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
- [6] MAGALHÃES, Aloísio. O que o desenho industrial pode fazer pelo país? Revista Arcos, Rio de Janeiro, v. 1, p. 8–13, 1998.
Como citar:
Villas-Bôas Dória Lins, Bruna; Loschiavo dos Santos, Maria Cecilia; "A exposição Nordeste (1963): Lina Bo Bardi e o olhar avant-gard para um projeto de design brasileiro", p-177-178.
In: 1º JPPD.
São Paulo: Blucher,
2026.
ISSN 23186968,
DOI 10.5151/1JPPD-0066
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TY - CONF T1 - A exposição Nordeste (1963): Lina Bo Bardi e o olhar avant-gard para um projeto de design brasileiro JO - Blucher Design Proceedings VL - 14 IS - 3 SP - 177 EP - 178 PY - 2026 T2 - I Jornada Paulista de Pesquisa em Design AU - , SN - 23186968 DO - http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0066 UR - www.proceedings.blucher.com.br/article-details/a-exposicao-nordeste-1963-lina-bo-bardi-e-o-olhar-avant-gard-para-um-projeto-de-design-brasileiro KW - Lina Bo Bardi; Design brasileiro; Exposição Nordeste (1963) ER -
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Bruna Villas-Bôas Dória Lins, Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, A exposição Nordeste (1963): Lina Bo Bardi e o olhar avant-gard para um projeto de design brasileiro, Blucher Design Proceedings, Volume 14, 2026, Pages 177-178, ISSN 23186968, http://dx.doi.org/10.5151/1JPPD-0066 (www.proceedings.blucher.com.br/article-details/a-exposicao-nordeste-1963-lina-bo-bardi-e-o-olhar-avant-gard-para-um-projeto-de-design-brasileiro) Palavras-chave:: Lina Bo Bardi; Design brasileiro; Exposição Nordeste (1963);